Miriam Panighel Carvalho

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São Paulo, meu amor!

Em 1554, no dia 25 de janeiro surgia no Planalto de Piratininga um pequeno colégio fundado pelos jesuítas Anchieta e Nóbrega, com o apoio do cacique Tibiriçá. Era o embrião do povoado que deu origem à Vila de São Paulo de Piratininga. Pouco a pouco, a Vila foi criando corpo e alastrando-se cada vez mais até atingir, desde fins do séc.XIX, um desenvolvimento tão rápido a ponto de , hoje, quatrocentos e cinquenta anos após sua fundação, ser considerada uma das maiores metrópoles do mundo. Se de um lado esse progresso gigantesco nos proporcionou marcos grandiosos, de outro, custou a esta cidade que nunca dorme, o esquecimento de seu passado glorioso, bem como o descaso à preservação de sua memória, raízes e tradições. No afã de crescer até superar a si próprio, o paulistano acabou por reduzir São Paulo a um enorme conglomerado de cimento e ferro. Transformou-se na máquina propulsora da Nação, é verdade, mas - quase sem notar - foi robotizando sua população. Uma população onde milhões de habitantes sobrevivem, alguns milhares vivem e muito poucos convivem. Suas áreas verdes foram cruelmente substituídas por maciços blocos de pedra; seus inúmeros pássaros, para não sucumbirem diante da poluição, foram gorjear em outros céus e a tradicional garoa paulistana deu lugar a densas e impenetráveis nuvens de pó.

Hoje não mais existem os elegantes cafés e leiterias que até bem pouco tempo emprestavam à Paulicéia um ar de "chiquê" e romantismo. Eles também se foram acabando para ceder vez aos "botecos" nem sempre dignos de ser freqüentados por quem quer que preze um mínimo de higiene. E à medida que seus tradicionais palacetes da época dos barões do café tombavam, erguiam-se numerosas favelas que atualmente se distribuem por toda a metrópole. A violência e o medo dominaram São Paulo e, em função dessa metamorfose vivemos hoje numa cidade que, de bela e alegre, passou a ser sombria e triste. Valeu a pena? Não sabemos. Talvez, com o tempo, venhamos a concluir que sim. E isto, só quando todos se conscientizarem de que a preservação da memória de nossa terra, suas raízes, seu passado e suas tradições devem ser uma constante em nosso meio a fim de que não invertamos valores. Por enquanto a interrogação perdura. Uma coisa, porém, é certa: para nós, paulistanos, triste, sombria, violenta, poluída ou fria, esta Paulicéia desvairada já cantada em prosa e verso pela boemia, poetas e mestres da nossa música popular, jamais deixará de aquecer nossos corações. Porque acolhe a todas as nacionalidades com braços abertos; porque dá guarida a qualquer brasileiro que a procura independentemente de cor, raça e religião. E porque consegue ser a única cidade capaz de ter tanto ferro e pedra quanto corpo e alma. Adoniran Barbosa que o diga...

Miriam Panighel Carvalho



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ESSÊNCIA

Lençois desalinhados
Cama revolta
Corpos aninhados
Roupas à solta

Beijos em profusão
Carícias desenfreadas
Seres em convulsão
Almas apaixonadas

Palavras pronunciadas
Com gostosa indecência
Libidos bem saciadas
Do sexo, a essência...


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ECLIPSE

Em alguma parte do mundo
O Sol devagar se escondeu
Silente, em pudor profundo,
A Lua apareceu...

Os dois, então se fundiram,
Ocultos por um eclipse
Milhões de estrelas surgiram
Para que ninguém os visse...

Carente, o Sol penetrou
Seus raios na luz do luar
A Lua, então se entregou
Com amor, ao astro solar...

E a Terra ficou estática
Foi ontem, lá na Antártica...